
Tenho uma "saga" com depressão, síndrome do pânico, transtorno de humor e antidepressivos desde os 20 anos, quando comecei a sofrer de insônia. Evitei muito tempo tomar remédios, achava horrível apelar para isso. Um dia, não aguentei mais e cedi. Meu ginecologista decidiu me receitar fluoxetina, o famoso Prozac.
Talvez por uma tendência genética, somada a uma afinidade pela solidão, eu tenha desde então alternado minha vida entre bons e maus momentos. E entre "tomando" e "fugindo" dos comprimidos. Tive até depressão gestacional, mal que, só descobri hoje, assola cerca de 30% das gestantes. Depois da primeira crise de pânico, já experimentei de tudo um pouco, acho que fui cobaia de um psiquiatra mais louco que seus pacientes.
O fato é que a vida de todo mundo tem altos e baixos, são ciclos pelos quais a gente passa desde que a nossa expectativa média de vida subiu de 40 para 70 e poucos anos... Quando se vivia pouco, pouco tempo sobrava para pensar, e a vida era bem mais simples, rápida e rústica. Agora temos milhares de coisas para escolher, trocamos de profissão ao longo da vida, trocamos de marido/esposa, trocamos de sexualidade, deixamos de ser filhos e filhas para sermos pais e mães, avôs e avós, tios e tias... Não é justo me tacharem de
"transtornada" por ser um pouco mais instável que os outros, talvez eu seja na verdade um pouco mais transparente ao
demonstrar minha fragilidade sendo imprevisível.
O que me parece é que sempre que as pessoas estão infelizes e insatisfeitas com suas vidas, alguém acaba lhes convencendo de que é depressão. Eu sei que estou infeliz, e isso me deprime. E estar deprimida me rouba a coragem de mudar. E fico mais infeliz ainda não mudando. É uma bola de neve.
Resolvi procurar mais gente como eu, o que é mais fácil do que encontrar quem não tome algum tipo de antidepressivo, hoje em dia. Felizes os que não precisam. Embora eu saiba que a medicina e a indústria farmacêutica tenham banalizado o seu uso, por comodidade e lucro, o certo é que somos o que se poderia chamar de "civilização perdida"... muito não sabem por que estão aqui, para onde vão, nem onde estão... Eu gostaria de me achar, e receio que tenha que procurar pela quarta ou quinta vez a ajuda de psicoterapeutas. Ou quem sabe criar coragem para admitir quem eu realmente sou, para mim mesma e para os outros, que estão esperando que eu não seja mesmo aquela louca que surta de vez em quando.