domingo, 11 de setembro de 2011

Jocasta Moderna: A mulher Climatérica do Século XXI

"A menopausa convida nossos importunos fantasmas a se porem a descoberto. Pede uma confrontação mais fundamental com o lado sombrio. (...) é um tempo para derramar as lágrimas pelo que foi, pelo que poderia ter sido e as lágrimas pelo que já não será."
(Strahan, 1994)
A mulher climatérica poderia ser psicologicamente comparada a uma adolescente? Quais suas expectativas para o futuro? Como o processo da perda da juventude e fertilidade afeta esta mulher? Existe atenção por parte dos poderes Federais, Estaduais e Municipais com programas sócio-culturais e de saúde coletiva específicos para esta mulher? Mas... Quem é essa mulher climatérica para nós?
Ela está na meia idade e vem, aparentemente, sendo cenário para sua família, para seu trabalho ....e vivendo através e por eles. Ou não? Isso é fato? Essa condição de cenário permanece no séc. XXI? Como essa invenção de “feminilidade” produzida e reforçada ao longo dos anos atua sobre esta mulher? Como o climatério encontra esta mulher e o que ela espera desse momento?
Objeto de investigações filosóficas desde a antiguidade, a diferença entre homens e mulheres é investida de uma enorme quantidade de saberes que procuravam encontrar na natureza dos gêneros alguma espécie de verdade sobre o ser.
A revista Época de setembro/2003 trazia na reportagem de capa : ETERNAMENTE JOVEM e uma frase chamou atenção: Velha é a vovozinha. Seria correto pensar que só as vovozinhas envelhecem? Em outubro deste mesmo ano , o Jornal televisivo Hoje da Rede Globo de Televisão apresentou a reportagem A chegada dos 40 anos.
Depoimentos de mulheres de diversos níveis socioculturais afirmavam : "Os 40 anos marcam a metade da vida [...]o grande medo é como vai ser a descida" (Ida Kublikowiski). Podemos dizer então que, uma mulher por volta dos 40 anos, estaria na metade de sua vida? Significaria que quase 50 % da vida dessa mulher se passa em declínio hormonal, sexual, social e psíquico?
No Brasil, a partir do final dos anos 80 início da década de 90 o climatério começa receber alguma atenção. Se havia relativo silêncio a respeito, por ainda ser tema tabu entre as mulheres, não deixava de ser uma questão relevante. Situando a menopausa como processo natural da vida da mulher, como de fato é , estava excluído dos programas de saúde coletiva e desqualificava a importância de uma assistência multidisciplinar com objetivo de melhora da qualidade de vida, optando claramente num primeiro momento pelo caminho da medicalização de mulheres poliqueixosas. Ou seja, tratava-se apenas o sintoma.
Em 1984, o Ministério da Saúde atendendo às reivindicações dos movimentos feministas da época elaborou o PAISM (Política de Assistência Integral à Saúde da Mulher). Seu texto descrevia ações educativas, preventivas de diagnóstico englobando assistência à mulher em clínica ginecológica, pré-natal, parto, puerpério, planejamento familiar, D.S.T. (Doenças sexualmente transmissíveis), câncer de colo de útero e mama, além de outras necessidades identificadas a partir do perfil da população. Só em 1993, o Ministério da Saúde incluiu orientações específicas sobre o climatério, com objetivo de "[...]universalizar os procedimentos em diversos níveis de atendimento, contemplando a melhoria dos indicadores de saúde[...]ao maior nível de atendimento sobre as modificações biológicas inerentes ao período do climatério, [...] propiciar adequada vigilância epidemiológica às situações de risco associadas." Os aspectos psicológicos e a sexualidade ainda não estavam contemplados.
Evidenciava o momento político, e naturalizando a exclusão dos desejos, dos sonhos de futuro, anseios de vida projetados pelas mulheres climatéricas, como se estivesse demarcando uma deadline para vida. Somente em 2004 o texto foi alterado visualizando a mulher como um ser biopsicossocial, incluindo e destacando a auto gerência sobre seu corpo e alertando sobre apelos da indústria farmacêutica com ofertas de eterna juventude.
Esta mulher precisa de um olhar psicológico para compreensão, transcendendo ao corpo físico, ao cultural, ao produzido e naturalizado. O que é comum encontrar? A super- vovó sublimada, dolorida, poliqueixosa ou a “loba” moderna devoradora de sua vida ou a executiva produtiva ou ainda uma versão moderna de Dona Benta? Joana D’Arc ou Thieta do Agreste? "Ninguém, aqui é puro anjo ou demônio, nem sabe a receita de viver feliz".
Escutando as histéricas, Freud começou a entender que havia um abismo entre a subjetividade das mulheres e a natureza feminina do pensamento iluminista. Pensou inicialmente que a cura para histeria consistiria em remetê-las de volta aos ideais de feminilidade que seus sintomas insistiam em recusar. A partir daí, todas as investigações que tentam fundar a diferença na anatomia tornaram-se obsoletas e pensar apenas nas condições pro criativas não desata o nó do significado da sexualidade. Mulher já saída da mãe (será?), da casa paterna, do primeiro namorado, da defloração e da menstruação. Casada ou não, sem filhos ou com eles já se indo...e os netos chegando... Procura no seu tempo, o re-conhecimento de si mesma.
Para Virginia Wolf "O tempo tem passado por cima de mim, é a aproximação dos quarenta. Que coisa estranha! Nada é mais uma coisa só” (Orlando, 1928). Esse sentimento de desconhecimento de si , o não reconhecer-se diante do espelho provoca uma angústia carente de escuta.
"(...)A crise tem mais a ver com as coisas que gostaria de ter feito e não fiz. Depois de certa idade você percebe que anda nas ruas e as pessoas não olham mais[...] Você olha para retratos antigos e pensa: puxa vida, eu era assim....!"
(Moema Toscano)
Se através do corpo (identidade física) vivemos e existimos em um dos aspectos de nossa identidade pessoal, então, tudo aquilo que o ameaça colocaria em risco nossa identidade psíquica?
Há séculos, a perda da capacidade reprodutora vem sendo associada à perda da feminilidade e da possibilidade de prazer sexual,uma espécie de crônica da morte anunciada. Trazer à luz sobre o sentimento psíquico de castração final e “irreparável” da mulher menopausada, investigar e analisar de forma crítica, as necessidades na vida da mulher climatérica tem sido cada dia mais valorizado com o aumento da expectativa de vida... Possibilitando uma qualidade de vida satisfatória e um re-encontro com o prazer de ser mulher através de cuidados psicológicos que atentem para esta mulher de forma holística e livre de juízos de valor , deixando longe a visão da poliqueixosa ...
Afinal... "Toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz... toda mulher se faz de coitada. TODA MULHER É MEIO LEILA DINIZ". (Rita Lee)
(Texto enviado por Yoneide Carmo - Psicóloga Clínica
Estudou Psicologia clínica na Universidade Gama Filho)

4 comentários:

Fogo disse...

Um tema muito interessante... o envelhecer... os 40 nas mulheres... algo que também acontece nos homens aos 40... a crise dos 40... mas acima de tudo o difícil é envelhecer... o esquecer de alguns sonhos... é duro...

hxmx13 disse...

Velha é a vovozinha? kkk As vovós vão se ofenser. Velha é a rua. kkkk

EAD/JOYCE disse...

Realmente, muita coisa existe a se estudar sobre a mulher, principalmente das acima de quarenta. Legal a abordagem.

Dorcas disse...

Maravilhoso esse texto!!! Eu já passei pelo climatério com tantas ondas de calor que pensei que ia enlouquecer. Agora estou na tão afamada menopausa e me sinto ótima: os calores diminuiram e, de uma forma interessante, passei a gostar mais de mim, de me cuidar mais e fazer sexo é muito melhor do que antes. Isto de andar na rua e as pessoas não olhar mais é verdade. É nesta hora que tem que levantar a cabeça (e a auto estima também), e seguir firme.

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